Escrita logográfica
Numa escrita logográfica, cada sinal representa uma palavra ou um morfema, não um som. O chinês é o único sistema logográfico importante ainda vivo, e o japonês usa-o em parte com os kanji. Os hieróglifos egípcios e a escrita cuneiforme também foram logográficos.
Os caracteres não são desenhos
É o mal-entendido mais difundido. Apenas 4 % dos caracteres chineses são pictogramas reconhecíveis: 山 (montanha), 木 (árvore), 日 (sol), 人 (pessoa). O resto constrói-se combinando componentes com duas funções distintas:
- O radical indica o campo de significado: 氵 água, 木 madeira, 心 coração, 口 boca, 女 mulher.
- O componente fonético sugere a pronúncia.
Assim, 河 («rio») une o radical da água a 可, que dá o som ke/he. Mais de 80 % dos caracteres seguem esse padrão, chamado fonossemântico. Não são desenhos, mas combinações sistemáticas de cerca de 214 elementos.
Os seis tipos de caractere
| Tipo | Como se forma | Exemplo |
|---|---|---|
| Pictograma | desenho do objeto | 山 montanha, 日 sol |
| Indicativo | sinal abstrato | 一 um, 上 em cima |
| Ideograma composto | duas ideias juntas | 明 (sol + lua) = claro |
| Fonossemântico | significado + som | 河 rio, 妈 mãe |
| Empréstimo fonético | um caractere usado pelo som | 來 vir, antes «trigo» |
| Derivado | variante de outro caractere | 老 e 考 |
Quantos sinais são precisos
É a desvantagem evidente. Um alfabeto precisa de 20 a 40 sinais; o chinês precisa de 3.000 a 4.000 para se ler um jornal, e os dicionários grandes registam mais de 50.000. Aprender a ler leva anos mais do que num sistema alfabético, e uma palavra nunca vista escrita não se consegue pronunciar.
As vantagens que explicam a sua sobrevivência
- Independência da pronúncia. Um mesmo texto é lido igual por um falante de mandarim e por um de cantonês, que não se entendem a falar. Se a China tivesse adotado um alfabeto, a sua escrita ter-se-ia fragmentado.
- Distingue os homófonos. O mandarim tem apenas cerca de 1.300 sílabas contando os tons, e portanto imensas palavras que soam igual. Os caracteres separam-nas; uma escrita fonética não poderia.
- Continuidade histórica. Um leitor atual consegue ler com esforço um texto de há dois mil anos, algo impossível com uma escrita fonética.
- Densidade. Um texto em caracteres ocupa muito menos espaço do que a sua tradução alfabética.
As escritas logográficas da história
- Cuneiforme (Mesopotâmia, 3200 a. C.): a escrita mais antiga conhecida, começou logográfica e evoluiu para o silábico.
- Hieróglifos egípcios (3200 a. C.): misturavam logogramas, sinais fonéticos e determinativos.
- Chinês (1200 a. C.): o único que chegou até hoje sem interrupção.
- Maia (300 a. C.): logossilábico, decifrado em grande parte no século XX.
- Escrita do vale do Indo (2600 a. C.): por decifrar.
Todos os sistemas de escrita do mundo começaram por ser logográficos: desenhar a coisa é o primeiro que ocorre a qualquer um. O passo para o fonético veio depois, e a maioria das escritas deu-o. Ver tipos de alfabeto e história do alfabeto.
- Os caracteres chineses são desenhos?
- Só 4 % o são. Cerca de 80 % combinam um radical de significado com um componente que sugere a pronúncia.
- Por que a China não adotou um alfabeto?
- Pelos homófonos e pela unidade escrita entre variedades de chinês que não se entendem a falar. Foi proposto várias vezes, até por Mao.
- É mais difícil aprender a ler chinês?
- Leva mais anos, sim: é preciso memorizar milhares de caracteres em vez de algumas dezenas de letras.