Alfabeto de caligrafia
A caligrafia é a arte de escrever bem à mão: cada letra traça-se num só movimento e a espessura é produzida pela ferramenta, não pelo preenchimento posterior. É o contrário do lettering, que desenha as letras, e a sua aprendizagem assenta em três coisas: o ângulo, as proporções e a repetição.
Os estilos históricos principais
| Estilo | Época | Traço distintivo |
|---|---|---|
| Uncial | séculos IV-VIII | redonda, só maiúsculas, sem ângulo |
| Carolíngia | século IX | origem das nossas minúsculas, muito legível |
| Gótica ou textura | séculos XII-XV | traços verticais angulosos e apertados |
| Humanística | século XV | regresso à carolíngia, base das tipografias modernas |
| Chancelaresca ou itálica | século XVI | inclinada, elegante, a mais praticada hoje |
| Copperplate ou inglesa | séculos XVIII-XIX | muito inclinada, contraste extremo, aparo pontiagudo |
| Spencerian | século XIX | americana, ovalada, base de logótipos clássicos |
Os dois tipos de aparo
- Aparo de ponta larga (ou de corte reto): a espessura depende da direção do traço, não da pressão. Mantém-se um ângulo constante — 30 graus para a itálica, 45 para a gótica — e o contraste sai sozinho. É o usado para uncial, gótica, carolíngia e itálica.
- Aparo pontiagudo (ou flexível): a espessura depende da pressão. Aperta-se ao descer e alivia-se ao subir. É o da copperplate e da spencerian, e o mais difícil de dominar.
Escolher mal o aparo para o estilo é o erro inicial mais comum: a gótica com ponta flexível sai trémula, e a copperplate com ponta larga não tem o contraste que a define.
As linhas-guia, que não são opcionais
Nenhum calígrafo escreve sobre papel em branco. Pauta-se a folha com quatro linhas:
- Linha de base: onde assentam todas as letras.
- Altura de x: o teto do corpo central das minúsculas.
- Linha de ascendentes: até onde sobem b, d, f, h, k, l.
- Linha de descendentes: até onde descem g, j, p, q, y.
A altura de x mede-se em larguras de aparo, não em milímetros: a itálica usa 5 larguras, a gótica 5, a uncial 4. Assim o mesmo alfabeto pode fazer-se em qualquer tamanho mantendo as proporções. Marca-se empilhando o aparo em escadinha sobre o papel.
Um plano de prática de oito semanas
- Semanas 1-2: só traços básicos com o ângulo constante. Linhas verticais, curvas, diagonais. Folhas inteiras.
- Semanas 3-4: minúsculas agrupadas por família de traço: primeiro i, l, t; depois n, m, h; depois o, c, e.
- Semanas 5-6: palavras curtas, trabalhando o espaço entre letras, que é metade do resultado.
- Semanas 7-8: maiúsculas e composição de uma frase completa.
Vinte minutos por dia rendem muito mais do que duas horas por semana: a caligrafia é memória muscular e consolida-se com a repetição espaçada.
O espaço entre letras
Um texto caligráfico bem feito tem a mesma área de branco entre todas as letras, não a mesma distância. Duas letras retas juntas (il) precisam de mais separação do que duas redondas (oo), e uma reta ao lado de uma redonda fica no meio. Esse ajuste ótico, e não a forma das letras, é o que distingue um trabalho de principiante de um bom.
Ver também lettering alfabeto, alfabeto gótico e alfabeto cursivo.
- Que aparo se usa para começar?
- Um de ponta larga de 2 ou 3 milímetros, com o qual se pratica a itálica. A espessura vem do ângulo e não exige controlo de pressão.
- Pode fazer-se caligrafia com marcador?
- Sim, com marcadores de ponta larga chanfrada ou de ponta de pincel. O resultado é diferente do do aparo mas a aprendizagem é a mesma.